quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pele ou Rápida história boba


Das belas e imponentes asas só restaram cicatrizes brancas e lisas. Os dedos dela deslizavam suavemente pelas marcas simétricas que, frias, contrastavam com a pele quente ao redor. Ele contava-lhe seus sentimentos e tudo o que se passara pela sua cabeça quando o prenderam e, sangrentamente, arrancaram as partes diferentes de seu corpo que carregava as costas.  Contava a ela tudo o que havia escondido por medo, e principalmente, por tristeza e dor.
Ela ouvia tudo em silencio tomada por uma tristeza inexplicável. Chorava desesperadamente sem exprimir som ou mudança de fisionomia. Continuava a acariciar as costas bem talhadas da criatura mutilada a sua frente, desejando de todo o seu ser que nenhuma daquelas palavras tivesse acontecido, mesmo que isso significasse não tê-lo em sua vida. Apoiou a testa nas cicatrizes bem marcadas fechando os olhos para que pudesse apenas sentir. A pele dele contra a sua, o movimento de sua respiração, seus batimentos cardíacos tão próximos. As lagrimas escorreram pela sua face, correram e também o tocaram causando arrepios na pele nua. Ele a abraçou sem saber o que falar para consolá-la por inteiro. Porem, ao perceber o que acontecia, o medo lhe tomou. Tentou rapidamente se afastar-se da pele dela, mas era tarde demais. O amor que ela sentia por ele já havia transformado tudo.

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