Das belas e imponentes asas só restaram cicatrizes brancas e
lisas. Os dedos dela deslizavam suavemente pelas marcas simétricas que, frias,
contrastavam com a pele quente ao redor. Ele contava-lhe seus sentimentos e
tudo o que se passara pela sua cabeça quando o prenderam e, sangrentamente,
arrancaram as partes diferentes de seu corpo que carregava as costas. Contava a ela tudo o que havia escondido por
medo, e principalmente, por tristeza e dor.
Ela ouvia tudo em silencio tomada por uma tristeza
inexplicável. Chorava desesperadamente sem exprimir som ou mudança de
fisionomia. Continuava a acariciar as costas bem talhadas da criatura mutilada
a sua frente, desejando de todo o seu ser que nenhuma daquelas palavras tivesse
acontecido, mesmo que isso significasse não tê-lo em sua vida. Apoiou a testa
nas cicatrizes bem marcadas fechando os olhos para que pudesse apenas sentir. A
pele dele contra a sua, o movimento de sua respiração, seus batimentos
cardíacos tão próximos. As lagrimas escorreram pela sua face, correram e também
o tocaram causando arrepios na pele nua. Ele a abraçou sem saber o que falar
para consolá-la por inteiro. Porem, ao perceber o que acontecia, o medo lhe
tomou. Tentou rapidamente se afastar-se da pele dela, mas era tarde demais. O
amor que ela sentia por ele já havia transformado tudo.
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