domingo, 20 de março de 2011

Desilusão

 Ela corria o máximo que suas pernas podiam aguentar. Não queria que ninguém mais visse as suas lágrimas. Parou apenas quando não havia mais para onde ir: chegara à praia.
O mar estava extremamente sereno. Já passava da meia-noite e não havia muitas pessoas, apenas um casal solitário que trocava juras e carinhos ali próximo. Sentou-se na areia, encolhendo-se. Apoiou a cabeça entre os joelhos e deixou que o choro a dominasse.
Daquele dia em diante não machucaria mais ninguém ao deixar a mostraseus sentimentos bobos e sem graça. Não, não deixaria que mais ninguém mergulhasse tão fundo. Sua essência estava selada e o seu acesso era proibido a quem quer que fosse.
O vento acariciava suavemente seus cabelos lisos e louros como se quisesse consolá-la.
Os soluços ainda a sacudiam. Houve uma nova enxurrada de pensamentos e lembranças de cenas trazendo novamente as lágrimasque ela tanto odiava. Demonstrava sua fraqueza, sua fragilidade.
Tentou se acalmar. Era dificíl respirar, como se existisse agora uma força invisível comprimindo seu tórax. Obrigou lentamente seus pulmões a se encherem de ar e em seguida a expulsá-los. A angústia a consumia.
levantou o rosto e tentou em vã apagar os resquícios das lagrimas. Olhou em volta e percebeu que o casal havia partido. Não havia ninguém na areia.
Em alguns instantes o Sol nasceria e acordaria consigo a cidade. Fechou os olhos  concentrando-se nobarulho das ondas que iame vinham calmamente.
Estava sozinha. Estava sozinha como, na realidade, sempre estivera.

sábado, 5 de março de 2011

Chuva

De longe

Era aniversário dele. Ela o observava de longe. Os cabelos dele pingavam, completamente encharcados de ovos. Ela apenas observava de longe.
Rodeado por amigos, ele sorria e brincava, provavelmente, muito feliz por completar 18 anos, a maioridade. Ela, infelizmente, observava de longe. Não teve coragem, durante toda a manhã de desejar-lhe um feliz aniversário. Apenas observava, de longe, o que não podia tocar. Aqueles olhos escuros que se ao menor sinal se aproximassemdos dela, já a faziam gelar. Aquele dorso suavemente entalhado, agora despido pra que os respingos de ovos não manchassem sua camisa. O rosto anguloso pelo qual ela suspirava. E finalmente, a pele clara levemente amarelada que tanto a atraía e a qual ela sonhava acariciar.
Observava-o de longe, mas antes que ela pudesse se dar conta, ele já se dirigia na sua direção por simples obra de uma das suas amigas.
- É su aniversário hoje? Parabéns - adiantou-se a amiga.
Ele sorriu olhando para a menina. Era sua vez.
- Feliz aniversário - ela tentou não corar.
Ele agradeceu e , sem mais, se afastou, indo embora com os amigos sem saber, talvez, que sem querer tinha partidoo coração da garota.
Ela continuou observando-o de longe, até que seus olhos não conseguiram mais vê-lo.