quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Aleatoriedade


Era um sentimento bom que ela sentia. Um bem-estar consigo mesma um tanto inexplicável. Não sabia ao certo se já conhecia aquilo ou se era novata neste assunto. Mas gostava. Gostava de querer algo que não sabia o que era, algo como abrir a geladeira e não saber o que deveria pegar, ou escolher, ir a algum lugar e não saber o que queria fazer ali. Sensações diferentes e que a muitos seria considerado ações um tanto loucas.
E essa vontade de fugir pra um lugar inexistente continuava. Uma vontade ensandecida de algo que não estava ali, e ela sabia, que não existia. Mas, como se pode querer algo que ainda não existe? Como ter vontade de algo não conhecido? Não sabia. Sabia apenas que queria. E olhava pela janela a noite, contemplando as luzes, que ao se acender iluminavam a sua cidade, deixando a garota ainda mais apaixonada por ela. Devaneava, e perdida em pensamentos perguntava-se a si mesma, coisas que não sabia a resposta, e lembrou-se depois que não sabia as perguntas também. Pensamentos soltos, aleatórios que bailavam na sua imaginação. Gostava de fazer isso, mesmo não sabendo a logica de fazê-lo.  E ali, naquela janela gradeada do quarto escuro, ela sabia apenas que queria sair e ao mesmo tempo ficar. Ver a cidade na qual a sua pessoa fora criada, e ir pra dentro de um livro, pra uma historia paralela. Mas sabia que no fundo, nada faria. Nada faria pela imensa dúvida que estava em si mesma, pela falsa confusão presente na mente, camuflada pelos pensamentos aleatórios e diferentes.
Pensamentos que eram apenas seus. Tão seus que não poderiam ser sentidos e muito menos explicados por mais ninguém.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Diferente de todos os dias.


E hoje, mais que tudo, queria sorrir sem ter motivos. Andar pelas ruas sem destino, se sentir a mais linda de todas, mesmo sem admiradores. Queria menos preocupações, menos brigas, menos rugas no rosto. Mais pipas no céu da tarde, mais jantares a luz de velas no meio da semana. Queria mais brigadeiros nas quartas-feiras, e menos balanças nas segundas. Gostaria que as pessoas fossem mais alegres e afetuosas, e menos turbulentas e barulhentas.
Naquela noite, sentia-se bem consigo mesma. Sentia-se bem com seu corpo, mesmo que desejasse muitas vezes muda-lo. Pela primeira vez, gostava imensamente que ele estivesse fora dos padrões, que fosse diferente. Gostou da expressão dos cabelos rebeldes.  Da cor da sua pele, nem bronzeada nem pálida, como gostaria que fosse. A personalidade do seu rosto. Olhar no espelho e lembrar que tanto havia se criticado... Mas, por quê? Seu nariz poderia ate não ser o mais bonito, mas trazia a marca de sua família, o traço marcado de tantas gerações. Seus olhos, não eram verdes e muito menos de outra cor bonita e que fosse apreciada pela sociedade, mas lhe serviam muito bem, funcionavam de forma perfeita, saudáveis e sem erros. E, ao olha-los mais atentamente, eram ate bem marcantes, como um dia lhe disseram. Aquela era ela, sem a maquiagem de cada dia, sem truques de beleza, sem roupas caras, sem futilidades. E ali, naquele momento tão seu o que descobriu? Que era, sim, bela.
Aquela era a verdadeira mulher que se escondia todos os dias atrás de uma imagem formulada. Era mais que bela. Era linda. Era linda porque era mulher e tinha sua própria opinião. Era linda porque não tinha personalidade e ideais que eram apenas dela. Era linda porque naquele momento diferente de todos os outros gostou de ser ela mesma e não quis ser mais ninguém. Sim, a mulher que ela enxergava no espelho, bem ali na sua frente, com roupas folgadas, cabelos desgrenhados e com as mãos dadas a frente do corpo por falta de lugar onde coloca-las era a mais bonita que já havia visto. E a partir daquele momento, ela não deixaria ninguém mais dizer o contrario.

sábado, 4 de agosto de 2012

Cheia de utopias



E a garota, que a tanto se sentia vazia e sem lugar no mundo, voltara a sorrir. Voltara a se sentir cheia, viva. Sentia os sentimentos percorrerem lhe a pele, sem saber expulsá-los de si. Sentia a inspiração subir à cabeça, os arrepios vagarem pela espinha, a quentura no pescoço lhe pedir um pouco mais de calor. Sentia que deveria aplicar aquilo tudo em algum lugar, fazer algo antes que aquela sensação se perdesse e demorasse a voltar, como sempre acontecia. E logo ela, a inspiração, que pouco a visitava recentemente e que lhe proporcionava tantas saudades.
Saudades? Saudades não lhe traziam também a inspiração? Sim. Traziam. Saudades de um passado que não volta e que ela desejava profundamente que voltasse. Desejava o passado de volta, todos os momentos deliciosos, alegres, profundos, de amizade, de amor, de historias e de tristeza... Sim, de tristeza, afinal, essa também faz parte da vida, e, de certo modo, lhe fazia bem, porque sem a tristeza, não se pode conhecer a felicidade. Essa tese clichê, que alguém um dia pensou era um dos pensamentos que ela almejava trazer para sua vida, escreve-lo na agenda mental diária e dificilmente esquece-lo. Queria coisas inteligentes e não intencionadas a partir de agora. Coisas simples e bonitas, coisas naturais. Coisas descomplicadas, pois de complicações já estava farta. Estava farta do pseudo-lirismo, do pseudo-intelectualismo, do pseudo romantismo, e de todos os outros pseudos. Estava cansada de tudo que era falso. Queria mais carpe diem, queria mais carpe noche. Queria algo puro, algo simples. Algo que bastasse em sua essência. Esse algo que ainda não tinha sido inventado, e para sua alegria, não tinha definição, pois também se cansara delas, definições que nada mais eram do que limitações disfarçadas.
Sentiu falta do papel e do lápis, mas eles estavam muito longe naquele momento, bem guardados, mas longe. Sentiu falta do que as pessoas haviam sido para ela em um tempo passado, e sentiu falta do que ela havia sido antes. Sentia falta do seu eu antigo. Sentia que queria poder falar tudo o que viesse a sua mente, sem que fosse julgada. Queria ser ela mesma, sem ser alvo de críticas maldosas e fofocas sem base. Queria um mundo mais limpo e justo. Mas querer nem sempre é ter o que se quer. O que lhe trazia tristeza, pois acreditava que aquele mundo imaginário era melhor que esse. Pensar assim poderia fazer dela uma pessoa muito cheia de si ao afirmar que o que ela tinha guardado na cabeça era melhor. Mas também a podia fazer uma boba por acreditar em contos de fadas.