E lá estava ela, sentada confortavelmente no banquinho de pedra no jardim. Como fazia sempre, ou sempre que o tempo permitia. Era ótimo para pensar.
O Sol já havia começado a descer para que a Lua pudesse trazer a noite. A luz amarelada produzia um lindo efeito sobre as nuvens brancas, colorindo-as.
Sophia se perdia em pensamentos, olhando para as massas volumosas e sem forma, que se locomoviam preguiçosamente. Desde bem pequena sonhava em alcançá-las.
“- Vovó, de que são feitas as nuvens? Para que servem?”, as lembranças lhe invadiam a mente.
“- Elas são apenas algodão doce. Servem de abrigo para os anjinhos que gostam de brincar de se esconder.”
Ela lembra como ficava encantada com as histórias que sua avó contava.
Lá estavam as nuvens flutuando no céu. O pôr do Sol estava quase no fim. O céu já escurecia e assim as formas brancas e coloridas ganhavam um tom acinzentado.
“– Um dia eu ainda vou ter asas!”
Ela podia ouvir o som do riso de sua avó quando ela lhe disse isto. Lágrimas escorreram pelo seu rosto. Lágrimas de saudade que rapidamente foram enxugadas.
O vento frio balançou as folhas das arvores e Sophia se encolheu em seu moletom arrependendo-se de ter posto shorts ao invés de calças.
Era o fim do outono. O jardim estava repleto de folhas secas. Os postes de luz já estavam acesos. A rua estava calma e silenciosa.
Sophia ainda admirava as nuvens acinzentadas quando o rapaz parou em frente ao portão. Sorriu para ela enquanto abria a grade e atravessava o jardim para ir ao seu encontro.
Aproximou-se se sentando ao seu lado. Cheirou seu cabelo, beijando-lhe a testa carinhosamente.
Ela sorriu em resposta, um sorriso triste. Ele abraçou-a quando ela apoiou sal cabeça em seu peito. Entrelaçou sua mão na dela, aquecendo seus dedos gelados. Não disse palavra alguma. Afinal, ele sabia que não existia nenhuma que poderia ser dita.
Lembrou-se da flor que trouxera. Pôs o lírio delicadamente entre os cabelos cacheados dela.
Sophia não conseguiu conter mais uma vez as lágrimas que inundavam seus olhos. Escondeu o rosto na camisa do namorado. Ele puxou-a para perto, envolvendo-a com seus braços.
As primeiras estrelas já apareciam no céu. Aos poucos os soluços foram se amenizando e sumiram. Ele ainda a envolvia com seus braços.
Ela sentia o seu cheiro, o seu calor. Ele olhou-a nos olhos e seus lábios se tocaram. Ele a beijou com ternura.
Dimitri. Ele fazia com que ela se esquecesse de tudo. Sempre que precisou ele esteve ali ao seu lado. Ele era seu amigo, antes de tudo. O melhor. Ela o amava muito, principalmente o jeito como ele lhe dava asas e a levava para caminhar nas nuvens.
Hoje deu vontade de ouvir Beatles. Quis correr atrás da inspiração e trazê-la pelo braço, nem que fosse arrastada. Quase fui.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
A pulseira Dourada
Eu analisava cada minúscula pedra da brilhante pulseira. Minuciosamente, brilhante por brilhante, arabesco por arabesco. Ela era simplesmente linda. Perfeita.
Coloquei-a em volta do meu pulso, e pela primeira vez em muito tempo gostei da cor amarelada da minha pele. Combinava com o dourado da singela e ao mesmo tempo poderosa jóia.
Desviei-me da peça para prestar atenção na embalagem na qual ela tinha chegado. Não havia remetente, só o lugar de onde viera o pequeno presente: Rio de Janeiro. Um bilhete: "Você é muito especial pra mim, nunca se esqueça".
Lembrei-me da foto fixada na parede.
Rio de Janeiro, séc.XX, 1930. Um Rio de Janeiro diferente, antigo, mas era o Rio. O MEU Rio. Uma cidade tão distante e ao mesmo tão perto dos pensamentos meus. Uma cidade taõ simples e tão imponente. Um Rio cheio de amores, de paixões ardentes.
Uma cidade quente, uma cidade dourada com pedrinhas brilhantes.
Olhei novamente para a minha pulseira dourada que adornava o meu pulso. Linda. Não consegui reunir coragem o bastante para retirá-la dali.
As lágrimas surgiram nos meus olhos, e não pude impedir que elas escorressem, se chocando contra as pedrinhas brilhantes que enfeitavam a jóia dourada.
Coloquei-a em volta do meu pulso, e pela primeira vez em muito tempo gostei da cor amarelada da minha pele. Combinava com o dourado da singela e ao mesmo tempo poderosa jóia.
Desviei-me da peça para prestar atenção na embalagem na qual ela tinha chegado. Não havia remetente, só o lugar de onde viera o pequeno presente: Rio de Janeiro. Um bilhete: "Você é muito especial pra mim, nunca se esqueça".
Lembrei-me da foto fixada na parede.
Rio de Janeiro, séc.XX, 1930. Um Rio de Janeiro diferente, antigo, mas era o Rio. O MEU Rio. Uma cidade tão distante e ao mesmo tão perto dos pensamentos meus. Uma cidade taõ simples e tão imponente. Um Rio cheio de amores, de paixões ardentes.
Uma cidade quente, uma cidade dourada com pedrinhas brilhantes.
Olhei novamente para a minha pulseira dourada que adornava o meu pulso. Linda. Não consegui reunir coragem o bastante para retirá-la dali.
As lágrimas surgiram nos meus olhos, e não pude impedir que elas escorressem, se chocando contra as pedrinhas brilhantes que enfeitavam a jóia dourada.
O par de alianças
Ela acariciava, com os dedos muito brancos, os brincos em sua orelha. Os cabelos caiam-lhe pelos ombros em grandes cachos negros. Estava ali havia horas. Sentada em sua cama não ousava se mexer, exceto pelos dedos que tocavam um piano invisível. Seus olhos não tinham luz, não havia brilho neles. Fitava o nada. Dava para ouvir a chuva fustigando as janelas do cômodo. Era o único som que se ouvia. Saindo de repente do seu suposto transe, a garota olhou para a sua mão direita e observou o novo anel que se juntara a poucos dias com o seu. Duas alianças prateadas cintilavam em seu dedo.Observou o quarto atentamente como se fosse uma estranha no ambiente. As paredes eram brancas, exceto uma delas que apresentava um tom de verde-claro. A colcha que cobria a cama continha flores coloridas, assim como as cortinas. Um quarto relativamente alegre. Haviam ainda fotos de pessoas sorridentes espalhadas pelas paredes e em cima da mesa. Um belo casal chamava a atenção pela alegria que podia ser vista em seus olhos. O par de namorados estava presente em todas as fotos. A moça que fora fotografada também possuía os mesmos cabelos negros e curtos, porém pouco se assemelhava à garota triste que sentava na cama, mais uma vez imóvel, devido às vestes negras, à falta de brilho no olhar e à maquiagem borrada que manchava o seu rosto.
A Janela
Aquele quarto era muito pequeno para manter todos os pensamentos dela cativos. A janela, porém, era bem pequena e suas grades eram fortes demais, o que impedia que ela saísse voando.
Ficou parada, como uma estátua, aos pés da única abertura que tinha para o mundo do lado de fora: a janela. Com as mãos agarradas aos ferros que a reprimiam, observou durante horas o exterior. Um mundo bem diferente do seu.
Com um pouco de esforço, conseguiu perceber umas crianças na rua que brincavam e riam. Crianças sujas e descalças corriam de um lado para o outro. Conseguiu ouvir o riso, as gargalhadas que ecoavam no Sol poente. Ouviu a felicidade nos olhos delas.
A tarde estava acabando. Mudou o olhar das crianças para o Sol, quase totalmente se posto, e em seguida para o imenso céu azul a sua frente. Fechou os olhos sentindo a brisa fria e salina que vinha do mar.
Voltando a si, depois de alguns instantes, algo lhe chamou a atenção. Ouviu atentamente e percebeu o que se aproximava. Um casal que tinha as mãos unidas, sentavam-se na grama. Com a atenção fixa nos dedos entrelaçados dos apaixonados, percebeu que nunca alguém fora tão carinhoso com ela como aquele rapaz era com a sua namorada. Os beijos freqüentes e calorosos do casal lhe deixavam feliz, pois mais uma vez ouviu nos olhos deles a felicidade.
Desviou a atenção do casal porque novamente algo a roubou. Um passarinho pousou ao lado de fora da janela. A jovem colocou as mãos fora da grade e para sua surpresa, o pequeno animal aninhou-se em seus dedos. Seu coração disparou. As penas macias acariciavam sua pele quente, e com isso descobriu que o passarinho tinha a cor azul. A pequena ave ali permaneceu.
O tempo havia passado desde que tinha ouvido as crianças na rua. O casal e o Sol também já não estavam lá. Só o passarinho ainda estava presente em suas mãos. E seu corpinho ficava cada vez mais frio. Com os dedos, tentou aquecê-lo, mas foi em vão. Ele se fora. Tentou olhar para ele, mas há tempos a única luz que saíam dos seus olhos eram lágrimas. E assim aconteceu. As lágrimas rolaram pelo seu rosto, e pela primeira vez naquele dia, ela sentiu tristeza.
Com a ave ainda dentro das mãos, sentiu a luz gélida da Lua na pele. As lágrimas não paravam de rolar. Sua boca não conseguiu proferir palavra alguma. Lembrou-se então dos primeiros pensamentos que teve assim que chegou à janela. Liberdade.
Com os sentimentos à flor da pele, agarrou-se à grade, e, usando todas as suas forças, arrancou-a da janela. Apanhou o passarinho azul e passou pela única abertura para o mundo exterior. Um mundo bem diferente do seu.
Despencou do oitavo andar porque a gravidade aprisionou o seu corpo impedindo-o de voar, o que para este foi fatal. Porém nada impediu que sua alma se libertasse e voasse com o passarinho para a Lua que tudo observava.
A menina que era mais uma menina, nunca mais viu a tristeza.
No dia seguinte, os vários jornais da cidade noticiaram:
" Uma grande tragédia aconteceu ontem, quando uma garota despencou do oitavo andar em um bairro pouco conhecido. A jovem se encontrava sozinha em um quarto quando ocorreu o ato.
O que muitos especialistas não entendem é como as grades que protegiam a janela podem ter sido arrancadas. A garota sofria de cegueira que adquiriu em um acidente de carro que matou seus pais. Os médicos não descartam a possibilidade de suicídio, embora as pessoas que moravam com ela afirmem que a jovem era totalmente saudável..."
Ficou parada, como uma estátua, aos pés da única abertura que tinha para o mundo do lado de fora: a janela. Com as mãos agarradas aos ferros que a reprimiam, observou durante horas o exterior. Um mundo bem diferente do seu.
Com um pouco de esforço, conseguiu perceber umas crianças na rua que brincavam e riam. Crianças sujas e descalças corriam de um lado para o outro. Conseguiu ouvir o riso, as gargalhadas que ecoavam no Sol poente. Ouviu a felicidade nos olhos delas.
A tarde estava acabando. Mudou o olhar das crianças para o Sol, quase totalmente se posto, e em seguida para o imenso céu azul a sua frente. Fechou os olhos sentindo a brisa fria e salina que vinha do mar.
Voltando a si, depois de alguns instantes, algo lhe chamou a atenção. Ouviu atentamente e percebeu o que se aproximava. Um casal que tinha as mãos unidas, sentavam-se na grama. Com a atenção fixa nos dedos entrelaçados dos apaixonados, percebeu que nunca alguém fora tão carinhoso com ela como aquele rapaz era com a sua namorada. Os beijos freqüentes e calorosos do casal lhe deixavam feliz, pois mais uma vez ouviu nos olhos deles a felicidade.
Desviou a atenção do casal porque novamente algo a roubou. Um passarinho pousou ao lado de fora da janela. A jovem colocou as mãos fora da grade e para sua surpresa, o pequeno animal aninhou-se em seus dedos. Seu coração disparou. As penas macias acariciavam sua pele quente, e com isso descobriu que o passarinho tinha a cor azul. A pequena ave ali permaneceu.
O tempo havia passado desde que tinha ouvido as crianças na rua. O casal e o Sol também já não estavam lá. Só o passarinho ainda estava presente em suas mãos. E seu corpinho ficava cada vez mais frio. Com os dedos, tentou aquecê-lo, mas foi em vão. Ele se fora. Tentou olhar para ele, mas há tempos a única luz que saíam dos seus olhos eram lágrimas. E assim aconteceu. As lágrimas rolaram pelo seu rosto, e pela primeira vez naquele dia, ela sentiu tristeza.
Com a ave ainda dentro das mãos, sentiu a luz gélida da Lua na pele. As lágrimas não paravam de rolar. Sua boca não conseguiu proferir palavra alguma. Lembrou-se então dos primeiros pensamentos que teve assim que chegou à janela. Liberdade.
Com os sentimentos à flor da pele, agarrou-se à grade, e, usando todas as suas forças, arrancou-a da janela. Apanhou o passarinho azul e passou pela única abertura para o mundo exterior. Um mundo bem diferente do seu.
Despencou do oitavo andar porque a gravidade aprisionou o seu corpo impedindo-o de voar, o que para este foi fatal. Porém nada impediu que sua alma se libertasse e voasse com o passarinho para a Lua que tudo observava.
A menina que era mais uma menina, nunca mais viu a tristeza.
No dia seguinte, os vários jornais da cidade noticiaram:
" Uma grande tragédia aconteceu ontem, quando uma garota despencou do oitavo andar em um bairro pouco conhecido. A jovem se encontrava sozinha em um quarto quando ocorreu o ato.
O que muitos especialistas não entendem é como as grades que protegiam a janela podem ter sido arrancadas. A garota sofria de cegueira que adquiriu em um acidente de carro que matou seus pais. Os médicos não descartam a possibilidade de suicídio, embora as pessoas que moravam com ela afirmem que a jovem era totalmente saudável..."
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