segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Asas

E lá estava ela, sentada confortavelmente no banquinho de pedra no jardim. Como fazia sempre, ou sempre que o tempo permitia. Era ótimo para pensar.
O Sol já havia começado a descer para que a Lua pudesse trazer a noite. A luz amarelada produzia um lindo efeito sobre as nuvens brancas, colorindo-as.
Sophia se perdia em pensamentos, olhando para as massas volumosas e sem forma, que se locomoviam preguiçosamente. Desde bem pequena sonhava em alcançá-las.
“- Vovó, de que são feitas as nuvens? Para que servem?”, as lembranças lhe invadiam a mente.
“- Elas são apenas algodão doce. Servem de abrigo para os anjinhos que gostam de brincar de se esconder.”
Ela lembra como ficava encantada com as histórias que sua avó contava.
Lá estavam as nuvens flutuando no céu. O pôr do Sol estava quase no fim. O céu já escurecia e assim as formas brancas e coloridas ganhavam um tom acinzentado.
“– Um dia eu ainda vou ter asas!”
Ela podia ouvir o som do riso de sua avó quando ela lhe disse isto. Lágrimas escorreram pelo seu rosto. Lágrimas de saudade que rapidamente foram enxugadas.
O vento frio balançou as folhas das arvores e Sophia se encolheu em seu moletom arrependendo-se de ter posto shorts ao invés de calças.
Era o fim do outono. O jardim estava repleto de folhas secas. Os postes de luz já estavam acesos. A rua estava calma e silenciosa.
Sophia ainda admirava as nuvens acinzentadas quando o rapaz parou em frente ao portão. Sorriu para ela enquanto abria a grade e atravessava o jardim para ir ao seu encontro.
Aproximou-se se sentando ao seu lado. Cheirou seu cabelo, beijando-lhe a testa carinhosamente.
Ela sorriu em resposta, um sorriso triste. Ele abraçou-a quando ela apoiou sal cabeça em seu peito. Entrelaçou sua mão na dela, aquecendo seus dedos gelados. Não disse palavra alguma. Afinal, ele sabia que não existia nenhuma que poderia ser dita.
Lembrou-se da flor que trouxera. Pôs o lírio delicadamente entre os cabelos cacheados dela.
Sophia não conseguiu conter mais uma vez as lágrimas que inundavam seus olhos. Escondeu o rosto na camisa do namorado. Ele puxou-a para perto, envolvendo-a com seus braços.
As primeiras estrelas já apareciam no céu. Aos poucos os soluços foram se amenizando e sumiram. Ele ainda a envolvia com seus braços.
Ela sentia o seu cheiro, o seu calor. Ele olhou-a nos olhos e seus lábios se tocaram. Ele a beijou com ternura.
Dimitri. Ele fazia com que ela se esquecesse de tudo. Sempre que precisou ele esteve ali ao seu lado. Ele era seu amigo, antes de tudo. O melhor. Ela o amava muito, principalmente o jeito como ele lhe dava asas e a levava para caminhar nas nuvens.

Um comentário:

  1. Adoro o jeito como vc escreve os traços melancólicos de seus contos!
    Te admiro muito...

    Gostei da sua visão de "ter asas". Um dia (há algum tempo atrás :P) eu desejava ter asas. Era algo que eu queria muito. É até engraçado pq eu realmente queria sair por ai voando. ;)

    Parabéns... adorei...

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