domingo, 28 de outubro de 2012

Cores e novos horizontes.


Viviam em uma casa cor de rosa com plantas penduradas da varanda. Cuidavam dos jardins todas as tardes, e a hortelã perfumava a casa. Faziam sua própria comida, e tinha uma vida simples. Mas ela se sentia sozinha.
Presenciava acontecimentos e não tinha para quem contá-los. Gostava do seu quarto cor de céu, mas ele apenas espelhava a sua solidão. Apesar da vida sossegada, o seu ser não estava tão tranquilo assim, o estresse e o mau humor a dominavam. Sentia-se irritada consigo mesmo por ser grossa e não gentil com os outros. O que havia de errado afinal? Estava a se acostumar com a vida atual, o processo que vivia era o de guardar os sentimentos antigos para que pudessem dar lugar a novos. Guardar, sem nunca esquecer, e como havia escrito uma vez sempre que sua saudade não houvesse fim, os tiraria do armário, lembrar, e chorar sorrindo. Ter lembranças tão belas e tão profundas, sem a que a vida lhes desse oportunidade de revivê-las, como ela não dá a ninguém.
Forçava-se a aceitar o presente, mas a solidão sempre parecia estar em algum lugar muito próximo. Sentia-se na obrigação de melhorar seu comportamento, e andar adiante, procurando coisas com o que ocupar a mente, usufruir o que a sua cidade tinha de melhor a oferecer. Tentar novas oportunidades, almejar novos horizontes. Sentia-se, por dentro, deprimida por ter que deixar o que tanto a fazia bem, mas, seguiria. Os sentimentos cresciam em seu íntimo, e podia sentir a força a revigorando. Tais experiências a faziam forte. Sabia que a vida lhe reservava muitas situações, e ela não podia deixar de vivê-las. E apesar de todas as falsas aflições, ela era feliz.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pele ou Rápida história boba


Das belas e imponentes asas só restaram cicatrizes brancas e lisas. Os dedos dela deslizavam suavemente pelas marcas simétricas que, frias, contrastavam com a pele quente ao redor. Ele contava-lhe seus sentimentos e tudo o que se passara pela sua cabeça quando o prenderam e, sangrentamente, arrancaram as partes diferentes de seu corpo que carregava as costas.  Contava a ela tudo o que havia escondido por medo, e principalmente, por tristeza e dor.
Ela ouvia tudo em silencio tomada por uma tristeza inexplicável. Chorava desesperadamente sem exprimir som ou mudança de fisionomia. Continuava a acariciar as costas bem talhadas da criatura mutilada a sua frente, desejando de todo o seu ser que nenhuma daquelas palavras tivesse acontecido, mesmo que isso significasse não tê-lo em sua vida. Apoiou a testa nas cicatrizes bem marcadas fechando os olhos para que pudesse apenas sentir. A pele dele contra a sua, o movimento de sua respiração, seus batimentos cardíacos tão próximos. As lagrimas escorreram pela sua face, correram e também o tocaram causando arrepios na pele nua. Ele a abraçou sem saber o que falar para consolá-la por inteiro. Porem, ao perceber o que acontecia, o medo lhe tomou. Tentou rapidamente se afastar-se da pele dela, mas era tarde demais. O amor que ela sentia por ele já havia transformado tudo.

sábado, 15 de setembro de 2012


Ela, com toda certeza, sentiria uma enorme falta deles. De todos; cada um em particular e juntos como um todo. Juntos.
Juntos, era como ela achava que deveria ficar. Mas a vida não tem piedade e acaba sempre por afastar a todos. Afastar não, separar. Ou seria mesmo afastar? Sim, era realmente afastar. Porque para ela, nada poderia separa-los. Nada mudaria o que ficara na memoria. Cada memoria guardada e bem guardada. Risadas de piadas sem graça. Apelidos reveladores porem carinhosos. Conversas sérias e descontraídas. Micos e dias depressivos de chuva. Fotos engraçadas e “espontâneas” que fazem todos se divertirem. A força que os unia ate nas provas finais. Os novatos que já conquistaram afeição. Os veteranos que, como verdadeiros companheiros, estiveram aqui sempre. As aulas à tarde e os “estudos” da tarde. As paqueras e rolos. As lagrimas e as flores.
Quanto a eles, nada tinha a reclamar ou a esquecer, apagar. Eles eram maravilhosos, faziam os seus dias mais radiantes. Cada um com seu jeito, sua marca registrada. Um se importando com o outro. Abraçando quando era ou não necessário. Desejando um “bom dia” animado nas provas das manhas de domingo. Todos.
Como ela sentiria falta. O mundo mandara cada um para um lugar diferente. Afastou-os fisicamente, e ate emocionalmente. Afastou um do convívio do outro. Mas não conseguirá apagar das lembranças tempos de tanta felicidade mútua que só quem ama guarda com carinho: os verdadeiros amigos.

O falso dono da casa


Elas riam por falarem coisas que nunca pensariam em falar pra ninguém e por serem também tão parecidas. Eles por sua vez, achavam graça das besteiras sobre as quais discutiam e mantinham seus pensamentos em segredo. Acomodavam-se nas cadeiras e em cima dos moveis da cozinham, enquanto os dois cozinhavam o almoço, embora um deles fizesse mais coisas que o outro.  Divertiam-se comendo creme de chocolate 10 minutos antes de a refeição estar pronta.
Fora sem duvidas uma tarde bem agradável. Depois de comer e lavar a louça, foram pro quarto se espalhando na lentidão de depois de almoço. Escutaram musicas, falaram sobre a faculdade, e sobre oportunidades, e também sobre o que cada um faria da vida a seguir. Sabiam que se separariam em breve, porem, ninguém gostava muito de pensar nisso, e quando o assunto chegou, trocaram palavras de possíveis reencontros futuros.
Riram, brincaram, se alongaram. Fumaram e comeram doces. O final da tarde se aproximava e sabiam que com ele, chegava também a partida de todos, um deles ainda mais para longe do que os outros, que por enquanto, ainda moravam na mesma cidade. E chegou a despedida, se arrumaram, desceram a rua e chamaram o taxi. Despediram-se gentilmente por alguns minutos, com acenos como “você faz falta” ou então, “espero que nos vejamos em breve”, e sem mais partiu o mais velho deles para a rodoviária. Os outros se encaminharam para o ponto de ônibus e as garotas foram embora no mesmo veiculo, deixando para trás o dono da casa sozinho.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Últimas promessas


E foi embora com a promessa de um dia voltar. Com a mochila as costas, ela sorria para segurar as lagrimas. Segurava as alças da bolsa a fim de esconder as mãos tremulas. Controlava a respiração para que não ficasse muito aparente que seu coração estava a mil e já batia com saudades de sua terra. E ao se afastar fechou os olhos para se certificar de que havia guardado tudo o que queria: o que seus olhos viram e fotografaram nas caminhadas solitárias pela cidade que tanto amava, e principalmente, a última visão de seus amigos olhando para ela enquanto ela entrava na sala de embarque. Cena que jamais queria esquecer, e que com certeza guardaria ate que a promessa feita para si mesma estivesse cumprida.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Laços


Sim, ela estava ali, mas já sentia saudades de tudo aquilo. Sabia que a partida estava perto, embora estivesse bem mais tranquila do que da primeira vez que partira. Sabia agora que sempre ao voltar, seria como se nada houvesse acontecido. Tinha o conhecimento de que poderia contar com eles sempre que quisesse, mesmo estando a 3000 km de distancia. Sabia que embora não se falassem sempre, e que não convivessem no dia-a-dia como tinha sido algum tempo antes, eles estariam sempre ali para ela. Sempre. Com todas as suas qualidades e imperfeiçoes, todos os seus dilemas e experiências. E tudo isso acontecia, simplesmente porque eram verdadeiros, seus irmãos de alma, a família escolhida por ela e por eles para ser o seu porto seguro. Um ambiente livre de quaisquer sentimentos invejosos, ou repressivos, apenas aquela implicância boba que sempre se tem com quem se ama muito. E ela os amava demais. Amava tanto, tão inexplicavelmente, tão intensamente. O que havia entre eles não se explica, não se vê, e não precisa ser falado pois todos que estão envolvidos por aquele laço invisível, tem a plena e nítida certeza do que se sente uns pelos outros. Uma relação altamente complexa e, muitas vezes, a mais simples possível.
 Todas as vezes que partia, deixava com eles um pedaço de si, para só se sentir completa novamente quando os reencontrasse. E sabia que isso nunca aconteceria novamente. Porque afinal a vida é assim, se deixa pedaços seus com as pessoas que se ama, e você por sua vez, também leva consigo partes delas.
 E assim, caminhando pela vida e partindo seu coração sempre que podia, ela seguia em frente sabendo acima de tudo que nada, muito menos uma simples distancia, pode acabar com sentimentos tão poderosos, bonitos e fortes como esse que ela tinha pelos seus amigos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Adeus novamente


Lá estava aquele sentimento de novo, o ar de adeus que ela já conhecia. Sentia o coração apertar forte, queria aproveitar cada ultimo instante que ainda pudesse. Queria chorar de forma inconsolável nos braços daqueles que não veria por mais um longo tempo. E ela os amava tanto... Mas nunca teve coragem de dizer. Talvez se sentisse como uma boba por dizer o que lhe era obvio demais.
Sabia que tinha de ir, ao contrario de antes, sua vida agora era vivida em dois lugares ao mesmo tempo. Vivia lá, e estava aqui. E quando estava lá, sentia seu coração presente aqui. Tinha conhecimento bastante sobre si mesma para dizer que seria feliz onde estivesse, pois sua felicidade dependia apenas dela mesma, mas... Como odiava a separação! Porque isso tinha de acontecer? Porque parti-la ao meio dessa forma? Essas e mais milhares de perguntas; respostas que sempre estaria à procura. Mas, quem sabe um dia elas lhe viessem sem pedido e sem culpa, ou simplesmente ela parasse de procurar, conformada com a realidade, e, possuindo entendimento suficiente, apenas sorrisse quando a vida lhe pregasse mais e mais peças.
Não podia nem tentou de impedir as lagrimas de lhe escapar pelos olhos e caminhar pela face diante de seus pensamentos. Tinha vontades, ela sabia. Tinha vontade de escrever, de correr pela praia, de escutar uma musica apoiada em alguém conhecido, e que ela amasse loucamente. Mas ela estava sozinha ali, e entendia que aquele momento era só seu, embora quisesse muito compartilha-lo. Calou os olhos, fechando-os, e deixou que o coração falasse, desabafasse para o tudo e o nada que estavam ambos a sua frente. O que viria a seguir? Não sabia, e a essa pergunta, talvez nunca obtivesse resposta. Mas, mesmo assim sorriu, tranquila e nervosa. Tranquila porque sabia que nada estaria mudado quando, um dia, pudesse retornar ate ali. E nervosa porque sabia que tudo muda o tempo todo.