E a garota, que a tanto se sentia vazia e sem lugar no
mundo, voltara a sorrir. Voltara a se sentir cheia, viva. Sentia os sentimentos
percorrerem lhe a pele, sem saber expulsá-los de si. Sentia a inspiração subir
à cabeça, os arrepios vagarem pela espinha, a quentura no pescoço lhe pedir um
pouco mais de calor. Sentia que deveria aplicar aquilo tudo em algum lugar,
fazer algo antes que aquela sensação se perdesse e demorasse a voltar, como
sempre acontecia. E logo ela, a inspiração, que pouco a visitava recentemente e
que lhe proporcionava tantas saudades.
Saudades? Saudades não lhe traziam também a inspiração? Sim.
Traziam. Saudades de um passado que não volta e que ela desejava profundamente
que voltasse. Desejava o passado de volta, todos os momentos deliciosos,
alegres, profundos, de amizade, de amor, de historias e de tristeza... Sim, de
tristeza, afinal, essa também faz parte da vida, e, de certo modo, lhe fazia
bem, porque sem a tristeza, não se pode conhecer a felicidade. Essa tese
clichê, que alguém um dia pensou era um dos pensamentos que ela almejava trazer
para sua vida, escreve-lo na agenda mental diária e dificilmente esquece-lo.
Queria coisas inteligentes e não intencionadas a partir de agora. Coisas
simples e bonitas, coisas naturais. Coisas descomplicadas, pois de complicações
já estava farta. Estava farta do pseudo-lirismo, do pseudo-intelectualismo, do
pseudo romantismo, e de todos os outros pseudos. Estava cansada de tudo que era
falso. Queria mais carpe diem, queria
mais carpe noche. Queria algo puro,
algo simples. Algo que bastasse em sua essência. Esse algo que ainda não tinha
sido inventado, e para sua alegria, não tinha definição, pois também se cansara
delas, definições que nada mais eram do que limitações disfarçadas.
Sentiu falta do papel e do lápis, mas eles estavam muito
longe naquele momento, bem guardados, mas longe. Sentiu falta do que as pessoas
haviam sido para ela em um tempo passado, e sentiu falta do que ela havia sido
antes. Sentia falta do seu eu antigo. Sentia que queria poder falar tudo o que
viesse a sua mente, sem que fosse julgada. Queria ser ela mesma, sem ser alvo
de críticas maldosas e fofocas sem base. Queria um mundo mais limpo e justo.
Mas querer nem sempre é ter o que se quer. O que lhe trazia tristeza, pois
acreditava que aquele mundo imaginário era melhor que esse. Pensar assim
poderia fazer dela uma pessoa muito cheia de si ao afirmar que o que ela tinha
guardado na cabeça era melhor. Mas também a podia fazer uma boba por acreditar
em contos de fadas.

